O Mundo pós-Guerra Fria
O mundo que se constituiu no último decênio do século XX apresentou-se totalmente diferente das décadas anteriormente conhecidas. O Grande Cisma que separou a Terra em dois blocos ideológicos rivais cessou de existir em 1989 e a palavra globalização correu pelo planeta quase como um efeito mágico.
Pela primeira vez na história moderna um cenário político mostrou-se favorável à integração de boa parte da humanidade num sistema econômico,político e social em comum. Todavia se está ainda bem longe de entender a Era pós-Guerra Fria como um jardim florido crescendo em paz a sombra de um sol universal, generoso e igualitário.
Os Efeitos da Revolução Russa
Alemães durante a queda do Muro de Berlim em 1989
A Revolução Russa de 1917 provocou uma enorme cisão na história contemporânea, um abismo que separou por quase setenta anos o mundo em dois hemisférios hostis que quase o levaram a uma hecatombe nuclear. Parecia que desde aquela época um outro Tratado de Tordesilhas havia sido traçado separando o capitalismo do socialismo.
Primeiramente, a fim de evitar um possível contágio revolucionário, as Potências Ocidentais impuseram a então República dos Sovietes a política do "cordão sanitário"(expressão de Georges Clemenceau, presidente da França). Desde o Outubro Vermelho a Rússia revolucionária foi transformada numa nação de parias, numa casta de intocáveis ideológicos.
Durante os primeiros anos da década de 1920 nenhum país do concerto ocidental estava autorizado a estabelecer qualquer tipo de relação diplomática ou comercial com a URSS. Isolamento esse que fez a Rússia mergulhar numa política paranóica que conduziu à tirania stalinista e a uma industrialização forçada que esmagou os desejos de liberdade despertados em 1917.
Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), derrotadas as forças do Nazi-fascismo e do Mikado japonês, foi à vez da URSS tomar a iniciativa de apartar-se.
Temerosa da nova coligação ocidental formalizada pela criação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que desde 1948 englobava a maioria dos países da Europa Ocidental liderados pelos Estados Unidos, Stalin fez baixar sobre o território controlado pelo Exército Vermelho uma "Cortina de Ferro" (expressão usada por Winston Churchill, num discurso feito em Fulton, nos EUA, em 1946).
Deste modo, ampliou-se o perímetro do seu isolamento, incluindo-se nele, além da União Soviética, parte da Alemanha, as fronteiras da Tchecoslováquia e da Hungria.
A formação dos dois blocos, o Ocidental e o Soviético, depois da Segunda Guerra Mundial, provocou como conseqüência uma temerária corrida armamentista entre ambos, cada um deles com mortíferos arsenais atômicos, gerando gastos bélicos estimados em U$ 17 trilhões de dólares, entre 1948-1988. Parecia que o planeta terra havia se tornado as duas faces da lua, uma desconhecendo a outra.
O Fim da Corrida Atômica
Todavia, uma série de acordos acertados desde 1961 entre o presidente John Kennedy e o primeiro-ministro soviético Nikita Kruschev, conduziram aos grandes tratados antiatômicos dos anos oitenta assinados entre o presidente Ronald Reagan e o presidente da URSS Mikhail Gorbachov que puseram fim a Guerra Fria.
O regime comunista, debilitado internamente e sem recursos materiais para continuar na corrida armamentista e tecnológica, havia jogado a toalha no chão do ringue. Ainda assim calcula-se que existam entre 12 a 19 mil armas nucleares nos diversos arsenais espalhados pelo mundo(metade delas pertencente aos EUA)
Não só isso. Antecedido pela derrubada do Muro de Berlim, ocorrida em novembro de 1989 (linha de tijolos, cimento e arame farpado que separava a cidade de Berlim em duas áreas hostis), o até então tido como sólido Império Soviético, começou a se desmantelar. Em 1991, ele deixou de existir pulverizado em 16 países independentes, sendo que a República Federativa da Rússia continuou com sua posição proeminente dentro de um contexto de derrota ideológica e moral.
Paralelamente a isso, os países satélites, a Polônia, a Hungria, a Romênia, a Bulgária, a Tchecoslováquia e a Alemanha Oriental (oficialmente designada como República Democrática da Alemanha), viram-se livres da tutela militar soviética, exercida desde 1945, depois que poderosas manifestações de massa dominaram as capitais do Leste europeu.
As multidões saíram às ruas a favor da democracia e para por um término no monopólio político exercido pelo partido comunista.
O Colapso do Socialismo Real
O aquecimento global: novo inimigo da sociedade industrializada
Deste modo conseguiram sepultar no Leste europeu o regime dito do Socialismo Real (designação cunhada pelo secretário-geral do Partido Comunista da URSS Leonid Brejnev).
Façanha vitoriosa que foi possível em vista da retirada das tropas soviéticas do Afeganistão, onde estavam lutando contra os mujahideen, os guerreiros muçulmanos, desde 1980 (recuo esse que foi uma confissão pública do fracasso militar do Exército Vermelho).
O afrouxamento da tensão mundial, que já vinha se manifestando desde a segunda metade dos anos 70, acelerou-se ainda mais com o término da Guerra Fria. Situação que em larga parte deveu-se à adoção da política da Glasnost e da Perestroika, as reformas liberalizantes e democratizantes comandadas por Mikhail Gorbachov na União Soviética, a partir de 1986.
Com o colapso do sistema coletivista naufragaram as doutrinas vindas dos tempos de Karl Marx, morto em 1883, que apostavam na construção de sociedades igualitárias por meio de uma economia planificada e sob controle de um partido único.
No seu lugar difundiram-se a partir dos Estados Unidos as teorias da Escola Neoliberal a favor do mercado, inspiradas em economistas como Friedrich Hayek (A Estrada da Servidão, 1944), filósofos como Karl Popper (A Sociedade Aberta e seus Inimigos, 1945), e cientistas como Michael Polanyi (A Lógica da Liberdade, 1951) que se opunham à presença do estado na economia e nos mais diversos aspectos da vida em sociedade.
O Fim das Ditaduras
Desde então, encerrado o Grande Cisma ideológico entre Ocidente e Oriente, as ditaduras caíram como castelos de cartas (Anastácio Somoza, na Nicarágua, Erich Honecker, na Alemanha Oriental, Nicolau Ceausescu na Romênia,General Leopoldo Galtieri na Argentina, General Augusto Pinochet no Chile, General Haji Suharto na Indonésia, Ferdinando Marcos nas ilhas Filipinas, o General Mobutu Sese Seko no Zaire, e assim por diante).
Por igual, teve fim o Regime Militar no Brasil, em 1986, e a "Ditadura Perfeita" exercida pelo Partido Revolucionário Institucional no México, de 1929 a 2000. Regimes de exceção esses que antes eram apoiados por uma ou outra superpotência passaram a não ter mais razão de ser.
Naqueles decênios de 80 e 90 ocorreu a maior conversão à democracia em toda a história da humanidade. Desde a queda do Muro de Berlim uma onda de liberdade varreu o globo em todos os sentidos, fazendo com que a Casa da Liberdade (expressão de Timothy Garton Ash) saltasse dos 35 estados democráticos existentes em 1975 para 112 em pouco mais de vinte anos.
Todavia, além da débâcle soviética, o que causou maior repercussão internacional foi o abandono da economia coletivista por parte da China Comunista e sua adesão ao sistema capitalista. O líder dessa radical reorientação modernizadora foi o secretário-geral do Partido Comunista Deng Xiaoping que, a partir de 1980, determinou a fixação de cinco Zonas Especiais (nas cidades de Shenzhen, Zhuhai, Shantou, Xiamen e província de Hainan. Shenzhen), que passaram a acolher as grandes corporações capitalistas ocidentais.
Desde então a nação chinesa apresentou índices espantosos de desenvolvimento, integrando no universo do consumo mais de 350 milhões dos seus habitantes. Seguramente a economia do mundo inteiro sentiu fortemente os efeitos daquela ampliação do mercado.
Globalização
O desmantelamento da URSS e a capitulação da China Comunista promoveu a líder mundial à única superpotência que restou: os Estados Unidos da América, transformados numa hiperpotência desses Novos Tempos do pós-Guerra Fria.
O desaparecimento das fronteiras ideológicas e econômicas, com a subseqüente absorção das antigas potências comunistas pelo mercado internacional, promoveu Washington como a sede da hegemonia dos norte-americanos sobre o mundo inteiro.
O país que antes reinava sobre a metade do planeta, passou a comandá-lo quase que por inteiro, tanto assim que o dispêndio norte-americano para a guerra (armas convencionais, táticas e estratégicas), chegou a mais de 40% do que o restante dos países até então gastavam.
Abriam-se deste modo os caminhos para uma acelerada globalização econômica e cultural sob a égide do capitalismo anglo-saxão. Nunca como desde então os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, e a Austrália estiveram tão alinhados aos mesmos propósitos.
Um cenário inédito na história da humanidade então se formou num repente, nos quais os capitais e investimentos passaram a trafegar por todos os lados sem se arrepiarem frente a quaisquer barreiras. Uma rede de bolsas de valores interligadas estabeleceu um eficiente colar sobre o mundo negociando bilhões de dólares diariamente.
Estende-se de Nova York à Londres e à Frankfurt, indo até Tóquio no Japão e Xangai na China. Simultaneamente a isso, a essa liberdade universal dos capitais, a industria da informática assumiu a vanguarda das inovações, tendo como seu motor impulsionador o computador e a Internet.
O novo ordenamento econômico
Desaparecido o "ódio ideológico" que opunha o capitalismo ao comunismo, ou a democracia liberal à ditadura soviética, as nações espalhadas pelo globo trataram de compor-se segundo sua proximidade geográfica.
Os estados europeus apressaram os seus processo de unificação por meio da União Européia (hoje composta por 27 países). Os da América do Norte (EUA-Canadá-México), por sua vez, se acertaram pelo Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (North American Free Trade Agreement) ou Nafta, enquanto que os do continente sul-americano associaram-se pelo Mercosul (Argentina-Brasil-Paraguai e Uruguai).
O mesmo ocorrendo com a formação da União Africana (com 53 membros), e assim por diante. Esta nova composição internacional na busca da formação de mercados mais amplos, liberou as energias nacionais para que uma integração universal mais eficaz e lucrativa tivesse início, crescendo por igual a interdependência entre os países de um modo geral.
As antigas bases de soberania absoluta exercida pelo Estado-Nacional como se conhecia desde os tempos da Paz de Westfália, de 1648, começaram a ruir, assim como as decisões políticas plenamente autônomas.
Nenhum governante dos dias de hoje pode tomar decisões sem levar em conta os estados que lhe são próximos e os interesses gerais da ordem mundial que hoje temem os efeitos da expansão industrial pelo planeta. Nunca as diferentes partes do mundo se pareceram tanto entre si como agora.
Resumo dos Novos Tempos
Geopolítica: o encerramento da Guerra Fria entre 1989 e 1991 alçou os EUA como a única hiperpotência, tendo como conseqüência a hegemonia do capitalismo norte-americano sobre todos os demais, ao tempo que dólar, ainda que tenha que rivalizar-se com o euro da União Européia, firmou-se como moeda internacional.
Ideologia: o colapso ideológico do Marxismo, que acompanhou o fim da União Soviética, e a paralisia da social-democracia européia daí decorrente, promoveu o Neoliberalismo como nova ideologia do capitalismo pós-Guerra Fria. Isso trouxe como conseqüência a repulsa à presença estatal na vida econômica, dando ensejo a uma generalizada política de privatizações das empresas públicas, adotada em larga parte do mundo.
Democracia: regimes democráticos sucederam as ditaduras em praticamente todos os continentes, fazendo com que pela primeira vez na história o número de regimes baseados no sufrágio universal e nos direitos do homem superassem as tiranias e os regimes de partido único.
Economia: o processo de Globalização Econômica, iniciado de fato com as Grandes Descobertas e Navegações do século XV, se acelerou ainda mais, promovendo um elevado patamar de bem estar social na maioria dos paises. Países vizinhos do mesmo continente passaram a conformar blocos econômicos: União Européia, Nafta, Mercosul, União Africana, etc.)
Internacionalização: ocorreu a ampliação da interdependência entre as nações e povos, acompanhada pelo enfraquecimento do Estado-Nacional e da política local, dando lugar a proeminência das instituições supranacionais (ONU, União Européia, Otan, OMC, FMI, etc.)
Cultura: a língua inglesa virou língua franca, difundindo-se ainda mais graças à nova linguagem da informática, ao tempo em que a cultura norte-americana (cinema, vídeos, música, moda, etc.) se expandiu ainda mais rapidamente pelo mundo. O computador ligado à Internet tornou-se o novo veiculo da globalização, permitindo comunicações intercontinentais entre empresas e entre indivíduos sem nenhuma intervenção do estado ou das autoridades.
Ecologia: as políticas ambientalistas passaram a rivalizar com as imposições do desenvolvimento econômico e social, questionando as medidas voltadas para a industrialização e consumo de massa. A Ecologia tornou-se uma espécie de religião universal de preservação da natureza, enquanto o "aquecimento global" , com seus possíveis desastres climáticos, é a nova preocupação das entidades preservacionistas.
Crise: o Oriente Médio (com as tradicionais desavenças entre o Estado de Israel e seus vizinhos árabes, atraindo os EUA e a União Européia como co-participantes dos litígios), se converteu num Novo Bálcãs, fonte permanente de instabilidade e de guerras, enquanto o Islamismo ocupa o lugar do comunismo como "novo inimigo do Ocidente", sendo que a luta contra o terrorismo serve como bandeira para a mobilização permanente dos Estados Unidos e seus aliados para intervirem no Oriente Médio e na Ásia Menor.
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/2007/10/22/000.htm
segunda-feira, 27 de junho de 2011
(LEITURA IMPORTANTE) PANDORA E STRADIVARIUS (ENERGIA NUCLEAR)
Pandora e Stradivarius
Conta o mito grego que Epimeteu ganhou dos deuses uma caixa que continha todos os males. Advertiu a mulher, Pandora, que de modo algum a abrisse. Mordida pela curiosidade, ela desobedeceu e os males escaparam.
Hoje, uma das caixas de Pandora mais ameaçadoras são as usinas nucleares – 441 em todo o mundo. Por mais que os Epimeteu das ciências e dos governos apregoem serem seguras, os fatos demonstram o contrário. As mãos de Pandora continuam a provocar vazamentos.
O vazamento da usina nuclear de Chernobyl, em 1986, na Ucrânia, afetou milhares de pessoas, sobretudo crianças, e promoveu séria devastação ambiental. Calcula-se que Chernobyl provocou a morte de 50 mil pessoas.
Agora temos o caso da usina japonesa de Fukushima, atingida pelo tsunami. Ainda é cedo para avaliar a contaminação humana e ambiental provocada por vazamento de suas substâncias radioativas, mas o próprio governo japonês admite a gravidade. Se o Japão, que se gaba de possuir tecnologia de última geração, não foi capaz de evitar a catástrofe, o que pensar dos demais países que brincam de fogo atômico?
No Brasil, temos as três usinas de Angra dos Reis (RJ), construídas em lugar de fácil erosão por excesso de chuva, como o comprovam os desmoronamentos ocorridos na região a 1o de janeiro de 2010.
Ora, não há risco zero em nenhum tipo de usina nuclear. Todas são vulneráveis. Portanto, a decisão de construí-las e mantê-las é de natureza ética. Acidentes naturais e falhas técnicas e humanas podem ocorrer a qualquer momento, como já aconteceu nos EUA, na União Soviética e no Japão.
Em 1979, derreteu o reator da usina de Three Mile Island, nos EUA. Em Chernobyl, o reator explodiu. Em Fukushima, a água abriu fissuras. Portanto, não há sistema de segurança absoluta para essas usinas, por mais que os responsáveis por elas insistam em dizer o contrário.
Ainda que uma usina não venha a vazar, não são seguros os depósitos de material rejeitado pelos reatores. E quando a usina for desativada, o lixo atômico perdurará por muitas e muitas décadas. Haja câncer!
No caso de Angra, se ocorrer algum acidente, não há como evacuar imediatamente a população da zona contaminada. A estrada é estreita, não há campo de pouso para aviões de grande porte e os navios demorariam para aportar nas proximidades.
Cada usina custa cerca de US$ 8 bilhões. O investimento não compensa, considerando que a energia nuclear representa apenas 3% do total de modalidades energéticas em operação no Brasil. Nosso país abriga 12% da água potável do planeta. Com tantos recursos hídricos e enorme potencial de energias solar e eólica, além de energias extraídas da biomassa, não se justifica o Brasil investir em reatores nucleares.
Na Itália, eles foram proibidos por plebiscito. A Suécia agora desativa suas usinas, e a Alemanha decidiu, em maio deste ano, fechar todas as suas usinas nucleares.
Usinas nucleares são como violinos Stradivarius. Antônio Stradivari (1648-1737), italiano, construiu os mais perfeitos violinos. Mais de mil unidades, das quais restam 650. Hoje, um Stradivarius vale, no mínimo, R$ 5 milhões. Um violino nunca é exatamente igual ao outro. As madeiras utilizadas possuem diferentes densidades, a radiação sonora e a vibração diferem e podem ser percebidas por um bom ouvido. Todos os Stradivarius foram feitos por artesãos que souberam guardar os segredos de sua fabricação.
Assim são as usinas nucleares. Não existe uma exatamente igual à outra. Não é previsível o que pode ocorrer no núcleo de uma delas se houver um acidente, incidente ou crise. Assim como se reconhece a qualidade de um violino pelo seu som, apenas por sinais externos se pode avaliar a gravidade de um vazamento nuclear, verificando a temperatura, a radiação e emissão de isótopos radioativos como iodo 131, césio 137, estrôncio 90 e plutônio 238.
Um detalhe da caixa de Pandora: só não escapou o único bem que se misturava aos males – a esperança. E a ela nos atemos neste momento em que, em todo o mundo, há mobilizações pela desativação de usinas nucleares. É hora de o povo brasileiro reagir, antes que se rompam as cordas do violino e as malditas mãos de Pandora venham a abrir de novo a caixa nuclear.
(BRASIL DE FATO. DE 16 A 22 DE JUNHO DE 2011)
Conta o mito grego que Epimeteu ganhou dos deuses uma caixa que continha todos os males. Advertiu a mulher, Pandora, que de modo algum a abrisse. Mordida pela curiosidade, ela desobedeceu e os males escaparam.
Hoje, uma das caixas de Pandora mais ameaçadoras são as usinas nucleares – 441 em todo o mundo. Por mais que os Epimeteu das ciências e dos governos apregoem serem seguras, os fatos demonstram o contrário. As mãos de Pandora continuam a provocar vazamentos.
O vazamento da usina nuclear de Chernobyl, em 1986, na Ucrânia, afetou milhares de pessoas, sobretudo crianças, e promoveu séria devastação ambiental. Calcula-se que Chernobyl provocou a morte de 50 mil pessoas.
Agora temos o caso da usina japonesa de Fukushima, atingida pelo tsunami. Ainda é cedo para avaliar a contaminação humana e ambiental provocada por vazamento de suas substâncias radioativas, mas o próprio governo japonês admite a gravidade. Se o Japão, que se gaba de possuir tecnologia de última geração, não foi capaz de evitar a catástrofe, o que pensar dos demais países que brincam de fogo atômico?
No Brasil, temos as três usinas de Angra dos Reis (RJ), construídas em lugar de fácil erosão por excesso de chuva, como o comprovam os desmoronamentos ocorridos na região a 1o de janeiro de 2010.
Ora, não há risco zero em nenhum tipo de usina nuclear. Todas são vulneráveis. Portanto, a decisão de construí-las e mantê-las é de natureza ética. Acidentes naturais e falhas técnicas e humanas podem ocorrer a qualquer momento, como já aconteceu nos EUA, na União Soviética e no Japão.
Em 1979, derreteu o reator da usina de Three Mile Island, nos EUA. Em Chernobyl, o reator explodiu. Em Fukushima, a água abriu fissuras. Portanto, não há sistema de segurança absoluta para essas usinas, por mais que os responsáveis por elas insistam em dizer o contrário.
Ainda que uma usina não venha a vazar, não são seguros os depósitos de material rejeitado pelos reatores. E quando a usina for desativada, o lixo atômico perdurará por muitas e muitas décadas. Haja câncer!
No caso de Angra, se ocorrer algum acidente, não há como evacuar imediatamente a população da zona contaminada. A estrada é estreita, não há campo de pouso para aviões de grande porte e os navios demorariam para aportar nas proximidades.
Cada usina custa cerca de US$ 8 bilhões. O investimento não compensa, considerando que a energia nuclear representa apenas 3% do total de modalidades energéticas em operação no Brasil. Nosso país abriga 12% da água potável do planeta. Com tantos recursos hídricos e enorme potencial de energias solar e eólica, além de energias extraídas da biomassa, não se justifica o Brasil investir em reatores nucleares.
Na Itália, eles foram proibidos por plebiscito. A Suécia agora desativa suas usinas, e a Alemanha decidiu, em maio deste ano, fechar todas as suas usinas nucleares.
Usinas nucleares são como violinos Stradivarius. Antônio Stradivari (1648-1737), italiano, construiu os mais perfeitos violinos. Mais de mil unidades, das quais restam 650. Hoje, um Stradivarius vale, no mínimo, R$ 5 milhões. Um violino nunca é exatamente igual ao outro. As madeiras utilizadas possuem diferentes densidades, a radiação sonora e a vibração diferem e podem ser percebidas por um bom ouvido. Todos os Stradivarius foram feitos por artesãos que souberam guardar os segredos de sua fabricação.
Assim são as usinas nucleares. Não existe uma exatamente igual à outra. Não é previsível o que pode ocorrer no núcleo de uma delas se houver um acidente, incidente ou crise. Assim como se reconhece a qualidade de um violino pelo seu som, apenas por sinais externos se pode avaliar a gravidade de um vazamento nuclear, verificando a temperatura, a radiação e emissão de isótopos radioativos como iodo 131, césio 137, estrôncio 90 e plutônio 238.
Um detalhe da caixa de Pandora: só não escapou o único bem que se misturava aos males – a esperança. E a ela nos atemos neste momento em que, em todo o mundo, há mobilizações pela desativação de usinas nucleares. É hora de o povo brasileiro reagir, antes que se rompam as cordas do violino e as malditas mãos de Pandora venham a abrir de novo a caixa nuclear.
(BRASIL DE FATO. DE 16 A 22 DE JUNHO DE 2011)
quinta-feira, 23 de junho de 2011
ESCREVER É FÁCIL?
ESCREVER É FÁCIL?
Gustavo Bernardo
Para estimular crianças e jovens a escrever, há quem diga que escrever é fácil: basta pôr no papel o que está na cabeça. Na maioria das vezes, porém, este estímulo é deveras desestimulante.
Há boas explicações para o desestímulo. Primeira: se a pessoa não consegue escrever, convencê-la de que escrever é fácil na verdade a convence apenas da sua própria incompetência, a convence apenas de que ela nunca vai conseguir escrever direito. Segunda: não se escreve pondo no papel o que está na cabeça, sob pena de ninguém entender nada. Terceira: quem escreve profissionalmente nunca acha que escrever é fácil, nem mesmo quando escreve há muito tempo – a não ser que já escreva mecanicamente, apenas repetindo frases e fórmulas.
Via de regra, nosso pensamento é caótico: funciona para alimentar nossas decisões cotidianas, mas não funciona se for expresso, em voz alta ou por escrito, tal qual se encontra na cabeça. Para entender o nosso próprio pensamento, precisamos expressá-lo para outra pessoa. Ao fazê-lo, organizamos o pensamento segundo um código comum e então, finalmente, o entendemos, isto é, nos entendemos. Não à toa o jagunço Riobaldo, narrador do romance “Grande sertão: veredas”, dizia: “professor é aquele que de repente aprende”.
Todo professor conhece este segredo: você entende melhor o seu assunto depois de dar sua aula sobre ele, e não antes. Ao falar sobre o meu tema, tentando explicá-lo a quem o conhece pouco, aumento exponencialmente a minha compreensão a respeito. Motivado pelas expressões de dúvida e até de estupor dos alunos, refino minhas explicações e, ao fazê-lo, entendo bem melhor o que queria dizer. Costumo dizer que, passados tantos anos de profissão, gosto muito de dar aula, principalmente porque ensinar ainda é o melhor método de estudar e compreender.
Ora, do mesmo jeito que ensino me dirigindo a um grupo de alunos que não conheço, pelo menos no começo dos meus cursos, quem escreve o faz para ser lido por leitores que ele potencialmente não conhece e que também não o conhecem. Mesmo quando escrevo um diário secreto, o faço imaginando um leitor futuro: ou eu mesmo daqui a alguns anos, ou quem sabe a posteridade. Logo, preciso do outro e do leitor para entender a mim mesmo e, em última análise, para ser e saber quem sou.
Exatamente porque esta relação com o outro, aluno ou leitor, é tão fundamental, todo professor sente um frio na espinha quando encontra uma nova turma, não importa há quantos anos exerça o magistério. Pela mesma razão, todo escritor fica “enrolando” até começar um texto novo, arrumando a escrivaninha ou vagando pela internet, não importa quantos livros já tenha publicado. Pela mesmíssima razão, todo aluno não quer que ninguém leia sua redação enquanto a escreve ou faz questão de colocá-la debaixo da pilha de redações na mesa do professor, não importa se suas notas são boas ou não na matéria.
Porque escrever definitivamente não é fácil, expondo-nos no momento mesmo de fazê-lo. Como diz João Cabral de Melo Neto, num dos poucos poemas que sei de cor e de coração:
Escrever é estar no extremo
de si mesmo, e quem está
assim se exercendo nessa
nudez, a mais nua que há,
tem pudor de que outros vejam
o que deve haver de esgar,
de tiques, de gestos falhos,
de pouco espetacular
na torta visão de uma alma
no pleno estertor de criar.
Quem escreve põe o pé na beira do seu próprio abismo, porque abala suas certezas e multiplica suas dúvidas.
Quem escreve despe mais do que as próprias roupas, porque enquanto escreve ainda não sabe o que mostra para os outros.
Quem escreve sente de repente todas as suas hesitações, lacunas e omissões, percebendo como o seu próprio pensamento é incompleto e o quanto ainda precisa pensar.
Quem escreve de repente entende o quanto a sua própria pessoa é incompleta e fraturada, o quanto ainda precisa se refazer, se inventar, enfim: se reescrever.
In: Revista Eletrônica do Vestibular da UERJ, 14/03/2011
http://www.dubitoergosum.xpg.com.br/a704.htm
Gustavo Bernardo
Para estimular crianças e jovens a escrever, há quem diga que escrever é fácil: basta pôr no papel o que está na cabeça. Na maioria das vezes, porém, este estímulo é deveras desestimulante.
Há boas explicações para o desestímulo. Primeira: se a pessoa não consegue escrever, convencê-la de que escrever é fácil na verdade a convence apenas da sua própria incompetência, a convence apenas de que ela nunca vai conseguir escrever direito. Segunda: não se escreve pondo no papel o que está na cabeça, sob pena de ninguém entender nada. Terceira: quem escreve profissionalmente nunca acha que escrever é fácil, nem mesmo quando escreve há muito tempo – a não ser que já escreva mecanicamente, apenas repetindo frases e fórmulas.
Via de regra, nosso pensamento é caótico: funciona para alimentar nossas decisões cotidianas, mas não funciona se for expresso, em voz alta ou por escrito, tal qual se encontra na cabeça. Para entender o nosso próprio pensamento, precisamos expressá-lo para outra pessoa. Ao fazê-lo, organizamos o pensamento segundo um código comum e então, finalmente, o entendemos, isto é, nos entendemos. Não à toa o jagunço Riobaldo, narrador do romance “Grande sertão: veredas”, dizia: “professor é aquele que de repente aprende”.
Todo professor conhece este segredo: você entende melhor o seu assunto depois de dar sua aula sobre ele, e não antes. Ao falar sobre o meu tema, tentando explicá-lo a quem o conhece pouco, aumento exponencialmente a minha compreensão a respeito. Motivado pelas expressões de dúvida e até de estupor dos alunos, refino minhas explicações e, ao fazê-lo, entendo bem melhor o que queria dizer. Costumo dizer que, passados tantos anos de profissão, gosto muito de dar aula, principalmente porque ensinar ainda é o melhor método de estudar e compreender.
Ora, do mesmo jeito que ensino me dirigindo a um grupo de alunos que não conheço, pelo menos no começo dos meus cursos, quem escreve o faz para ser lido por leitores que ele potencialmente não conhece e que também não o conhecem. Mesmo quando escrevo um diário secreto, o faço imaginando um leitor futuro: ou eu mesmo daqui a alguns anos, ou quem sabe a posteridade. Logo, preciso do outro e do leitor para entender a mim mesmo e, em última análise, para ser e saber quem sou.
Exatamente porque esta relação com o outro, aluno ou leitor, é tão fundamental, todo professor sente um frio na espinha quando encontra uma nova turma, não importa há quantos anos exerça o magistério. Pela mesma razão, todo escritor fica “enrolando” até começar um texto novo, arrumando a escrivaninha ou vagando pela internet, não importa quantos livros já tenha publicado. Pela mesmíssima razão, todo aluno não quer que ninguém leia sua redação enquanto a escreve ou faz questão de colocá-la debaixo da pilha de redações na mesa do professor, não importa se suas notas são boas ou não na matéria.
Porque escrever definitivamente não é fácil, expondo-nos no momento mesmo de fazê-lo. Como diz João Cabral de Melo Neto, num dos poucos poemas que sei de cor e de coração:
Escrever é estar no extremo
de si mesmo, e quem está
assim se exercendo nessa
nudez, a mais nua que há,
tem pudor de que outros vejam
o que deve haver de esgar,
de tiques, de gestos falhos,
de pouco espetacular
na torta visão de uma alma
no pleno estertor de criar.
Quem escreve põe o pé na beira do seu próprio abismo, porque abala suas certezas e multiplica suas dúvidas.
Quem escreve despe mais do que as próprias roupas, porque enquanto escreve ainda não sabe o que mostra para os outros.
Quem escreve sente de repente todas as suas hesitações, lacunas e omissões, percebendo como o seu próprio pensamento é incompleto e o quanto ainda precisa pensar.
Quem escreve de repente entende o quanto a sua própria pessoa é incompleta e fraturada, o quanto ainda precisa se refazer, se inventar, enfim: se reescrever.
In: Revista Eletrônica do Vestibular da UERJ, 14/03/2011
http://www.dubitoergosum.xpg.com.br/a704.htm
POR QUE O PROFESSOR NUNCA ACEITA MINHA OPINIÃO?
POR QUE O PROFESSOR NUNCA ACEITA A MINHA OPINIÃO?
Gustavo Bernardo
In: Revista Eletrônica do Vestibular da UERJ, 21/10/2009
Quando peço um trabalho discursivo, não é incomum, na hora de entregar as notas, aparecer um aluno perguntando por que a opinião dele não foi aceita. Reservo para esses momentos uma contra-pergunta cruel: “tinha alguma?”
É maldade, reconheço, ainda mais com alunos que já se encontram fragilizados, quiçá revoltados, com a nota obtida. Mas essa pergunta surpreende e serve para desestabilizar as expectativas possíveis: de que o professor fique envergonhado por não aceitar a opinião do aluno e volte atrás, ou de que tente sustentar a sua própria opinião como melhor e mais correta do que a do aluno.
No primeiro caso, confesso minha incompetência; no segundo, exponho minha prepotência.
É claro que a correção e a avaliação podem ser mal feitas, quer por o professor se encontrar com a mão pesada demais, quer por a proposta inicial não ser clara. Além disso, toda avaliação envolve um forte componente de subjetividade de quem avalia. Ora, na redação esse componente se multiplica por dois ou três.
Além da pergunta cruel acima, eu também costumo assumir em sala que a avaliação, por considerar apenas o produto final e a perspectiva do professor, e por não poder levar em conta as condições de produção do aluno nem compará-lo com ele mesmo, implica forte possibilidade de injustiça.
A minha avaliação não é diferente: as chances de ser injusto sempre são grandes. No entanto, é preciso avaliar, e de um lugar de autoridade, para que o aluno receba um retorno sobre o valor do que está fazendo. A nota, justa ou injusta, é a moeda de troca da escola. Para minimizar a possibilidade de injustiça, abro espaço para reclamações, mas sugiro que o aluno elabore cuidadosamente tais reclamações, de preferência também por escrito.
Quando o aluno não está apenas reagindo para “ver se cola”, portanto, quando ele tem certeza de que foi injustiçado e resolve argumentar por escrito, muitas vezes não só ele está certo em algum aspecto, forçando-me a rever a nota, como ainda escreve muito melhor do que no trabalho que originou a reclamação. Por quê?
Porque no trabalho original ele atende a uma demanda do professor e da escola, enquanto na reclamação ele defende o seu interesse. A segunda redação atende a uma necessidade e a um desejo pessoais, levando-o a caprichar muito mais. Acabo criando um exercício menos artificial do que o primeiro, permitindo-me mostrar para o aluno que, quando ele quer e precisa, pode fazer muito melhor.
Resta explicar a crueldade da pergunta “tinha alguma?”.
Além de desestabilizar as expectativas reativas, ela denuncia a supervalorização fetichista da “opinião pessoal” na nossa cultura. A todo instante, na televisão, nos jornais, nas mesas de bar, nas eleições, somos convocados a “dar” a nossa opinião a respeito de tudo e mais alguma coisa, como se tivéssemos no bolso uma coleção de opiniões.
O verbo “dar”, associado ao objeto direto “opinião”, sugere que opinião é uma “coisa” concreta que se tem ou não se tem. Transforma-se assim a opinião num fetiche, numa coisa – num objeto simples e não numa ideia complexa. Entretanto, se observarmos a nós mesmos com honestidade, “temos” opinião própria sobre pouquíssimos assuntos. Aquilo que chamamos de “nossa opinião” é em geral uma costura frágil de opiniões alheias, entremeando o que ouvimos ali e lemos acolá.
É muito difícil “ter” uma opinião porque uma opinião verdadeiramente pessoal se constrói com cuidado e com tempo. Não se pode sacar do bolso uma opinião adequada a tudo quanto seja tema. Por isso, pergunto ao aluno, que reclama de sua opinião não ter sido levada em conta, se ele de fato tinha alguma. Atrás da aparente maldade, há uma lógica.
Não critiquei a redação desse aluno por causa da sua opinião ou porque não concordava com ele, mas devido à fraqueza dos seus argumentos, argumentos estes típicos de opiniões apressadas, confusas e incoerentes. Como professor, pouco me interessam alunos que repitam o que digo, mas sim alunos que construam argumentos fortes, capazes de sustentar quaisquer teses.
Algumas vezes, ao coordenar bancas de correção de redações em concursos vestibulares, lembrei aos professores que, caso não concordassem ou se indignassem com a opinião externada por algum candidato, pensassem que seria bastante provável que aquela redação estivesse muito boa, e não muito ruim! Por quê? Porque, se incomodou o leitor-avaliador a ponto de irritá-lo, os argumentos deveriam ser fortes o bastante.
Fora da situação de concurso, em sala de aula, procuro lembrar-me desse alerta. Um trabalho que me incomode tem grandes chances de ser bom, no mínimo porque saiu da mesmice. Logo, tendo a avaliá-lo positivamente, sem me abster de discutir depois com o aluno as suas ideias. Indico que o respeito avaliando-o positivamente e, ao mesmo tempo, expressando minha discordância. Esse aluno constrói verdadeiramente uma opinião própria, e isso deve ser destacado.
Dei o exemplo de como tento avaliar, mas confesso que nem sempre consigo ser tão “democrático” ou tolerante. Tantas vezes percebo que fui injusto e, pior do que injusto, arrogante, quando é tarde demais. Sinto-me como o médico que comete um erro grave, capaz de custar até a vida do seu paciente. Meus erros não matam pessoas, mas podem machucar bastante. Como aquele médico, no entanto, preciso aprender com o erro e continuar, se essa é a minha profissão.
“Eu” sou menos importante do que o que eu faço, e posso fazê-lo bem se ficar menos preocupado comigo, com a minha imagem, com a minha opinião, enfim. Reza a filosofia oriental que “um sábio não tem ideia”, isto é, não tem opinião. Não sou esse sábio, é claro, mas o ponho no horizonte como um ideal capaz de regular a minha prática cotidiana.
Esse sábio procura apenas pensar e especular, ou seja, procura apenas duvidar e explorar a fundo as suas dúvidas. É o que uma boa redação, um bom trabalho discursivo também pode fazer, desistindo de procurar no bolso a “opinião certa”.
http://www.dubitoergosum.xpg.com.br/a449.htm
Gustavo Bernardo
In: Revista Eletrônica do Vestibular da UERJ, 21/10/2009
Quando peço um trabalho discursivo, não é incomum, na hora de entregar as notas, aparecer um aluno perguntando por que a opinião dele não foi aceita. Reservo para esses momentos uma contra-pergunta cruel: “tinha alguma?”
É maldade, reconheço, ainda mais com alunos que já se encontram fragilizados, quiçá revoltados, com a nota obtida. Mas essa pergunta surpreende e serve para desestabilizar as expectativas possíveis: de que o professor fique envergonhado por não aceitar a opinião do aluno e volte atrás, ou de que tente sustentar a sua própria opinião como melhor e mais correta do que a do aluno.
No primeiro caso, confesso minha incompetência; no segundo, exponho minha prepotência.
É claro que a correção e a avaliação podem ser mal feitas, quer por o professor se encontrar com a mão pesada demais, quer por a proposta inicial não ser clara. Além disso, toda avaliação envolve um forte componente de subjetividade de quem avalia. Ora, na redação esse componente se multiplica por dois ou três.
Além da pergunta cruel acima, eu também costumo assumir em sala que a avaliação, por considerar apenas o produto final e a perspectiva do professor, e por não poder levar em conta as condições de produção do aluno nem compará-lo com ele mesmo, implica forte possibilidade de injustiça.
A minha avaliação não é diferente: as chances de ser injusto sempre são grandes. No entanto, é preciso avaliar, e de um lugar de autoridade, para que o aluno receba um retorno sobre o valor do que está fazendo. A nota, justa ou injusta, é a moeda de troca da escola. Para minimizar a possibilidade de injustiça, abro espaço para reclamações, mas sugiro que o aluno elabore cuidadosamente tais reclamações, de preferência também por escrito.
Quando o aluno não está apenas reagindo para “ver se cola”, portanto, quando ele tem certeza de que foi injustiçado e resolve argumentar por escrito, muitas vezes não só ele está certo em algum aspecto, forçando-me a rever a nota, como ainda escreve muito melhor do que no trabalho que originou a reclamação. Por quê?
Porque no trabalho original ele atende a uma demanda do professor e da escola, enquanto na reclamação ele defende o seu interesse. A segunda redação atende a uma necessidade e a um desejo pessoais, levando-o a caprichar muito mais. Acabo criando um exercício menos artificial do que o primeiro, permitindo-me mostrar para o aluno que, quando ele quer e precisa, pode fazer muito melhor.
Resta explicar a crueldade da pergunta “tinha alguma?”.
Além de desestabilizar as expectativas reativas, ela denuncia a supervalorização fetichista da “opinião pessoal” na nossa cultura. A todo instante, na televisão, nos jornais, nas mesas de bar, nas eleições, somos convocados a “dar” a nossa opinião a respeito de tudo e mais alguma coisa, como se tivéssemos no bolso uma coleção de opiniões.
O verbo “dar”, associado ao objeto direto “opinião”, sugere que opinião é uma “coisa” concreta que se tem ou não se tem. Transforma-se assim a opinião num fetiche, numa coisa – num objeto simples e não numa ideia complexa. Entretanto, se observarmos a nós mesmos com honestidade, “temos” opinião própria sobre pouquíssimos assuntos. Aquilo que chamamos de “nossa opinião” é em geral uma costura frágil de opiniões alheias, entremeando o que ouvimos ali e lemos acolá.
É muito difícil “ter” uma opinião porque uma opinião verdadeiramente pessoal se constrói com cuidado e com tempo. Não se pode sacar do bolso uma opinião adequada a tudo quanto seja tema. Por isso, pergunto ao aluno, que reclama de sua opinião não ter sido levada em conta, se ele de fato tinha alguma. Atrás da aparente maldade, há uma lógica.
Não critiquei a redação desse aluno por causa da sua opinião ou porque não concordava com ele, mas devido à fraqueza dos seus argumentos, argumentos estes típicos de opiniões apressadas, confusas e incoerentes. Como professor, pouco me interessam alunos que repitam o que digo, mas sim alunos que construam argumentos fortes, capazes de sustentar quaisquer teses.
Algumas vezes, ao coordenar bancas de correção de redações em concursos vestibulares, lembrei aos professores que, caso não concordassem ou se indignassem com a opinião externada por algum candidato, pensassem que seria bastante provável que aquela redação estivesse muito boa, e não muito ruim! Por quê? Porque, se incomodou o leitor-avaliador a ponto de irritá-lo, os argumentos deveriam ser fortes o bastante.
Fora da situação de concurso, em sala de aula, procuro lembrar-me desse alerta. Um trabalho que me incomode tem grandes chances de ser bom, no mínimo porque saiu da mesmice. Logo, tendo a avaliá-lo positivamente, sem me abster de discutir depois com o aluno as suas ideias. Indico que o respeito avaliando-o positivamente e, ao mesmo tempo, expressando minha discordância. Esse aluno constrói verdadeiramente uma opinião própria, e isso deve ser destacado.
Dei o exemplo de como tento avaliar, mas confesso que nem sempre consigo ser tão “democrático” ou tolerante. Tantas vezes percebo que fui injusto e, pior do que injusto, arrogante, quando é tarde demais. Sinto-me como o médico que comete um erro grave, capaz de custar até a vida do seu paciente. Meus erros não matam pessoas, mas podem machucar bastante. Como aquele médico, no entanto, preciso aprender com o erro e continuar, se essa é a minha profissão.
“Eu” sou menos importante do que o que eu faço, e posso fazê-lo bem se ficar menos preocupado comigo, com a minha imagem, com a minha opinião, enfim. Reza a filosofia oriental que “um sábio não tem ideia”, isto é, não tem opinião. Não sou esse sábio, é claro, mas o ponho no horizonte como um ideal capaz de regular a minha prática cotidiana.
Esse sábio procura apenas pensar e especular, ou seja, procura apenas duvidar e explorar a fundo as suas dúvidas. É o que uma boa redação, um bom trabalho discursivo também pode fazer, desistindo de procurar no bolso a “opinião certa”.
http://www.dubitoergosum.xpg.com.br/a449.htm
Assinar:
Postagens (Atom)