terça-feira, 27 de março de 2012

GÊNERO TEXTUAL - EDITORIAL

(UNICAMP 2011) - Redação 3: Coloque-se na posição de um jornalista que, com base na leitura do texto abaixo, deverá escrever um editorial, isto é, um artigo jornalístico opinativo, para um importante jornal do país, discutindo o crescimento do e-lixo no Brasil. Seu texto deverá, necessariamente:

• abordar dois dos problemas relacionados ao crescimento do e-lixo no Brasil levantados pelo texto abaixo;
e
• apontar uma forma possível de enfrentar esse crescimento.

Atenção: Por se tratar de um editorial, você deverá atribuir um título ao seu texto. Lembre-se de que não deverá recorrer à mera colagem de trechos do texto lido.

Aumento na geração de e-lixo e responsabilidade compartilhada

Quando você descarta um equipamento eletrônico, você está gerando o que se conhece como “e-lixo”. São materiais tais como pilhas, baterias, celulares, computadores, televisores, DVD’s, CD’s, rádios, lâmpadas fluorescentes e muitos outros que, se não tiverem uma destinação adequada, vão parar em aterros comuns e contaminar o solo e as águas, trazendo danos para o meio ambiente e para a saúde humana. Com a rápida modernização das tecnologias, os aparelhos tornam-se ultrapassados em uma velocidade assustadora. Na composição dos equipamentos eletrônicos existem substâncias tóxicas como mercúrio, chumbo, cádmio, belírio e arsênio – altamente perigosos à saúde humana.
A Organização das Nações Unidas (ONU) pediu em 22 de fevereiro de 2010 medidas urgentes contra o crescimento exponencial do lixo de origem eletrônica em países emergentes como o Brasil. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) apresentou um relatório que ressalta a urgência de estabelecer um processo ambicioso e regulado de coleta e gestão adequada do lixo eletrônico uma vez que a geração desse lixo cresce mundialmente a uma taxa de cerca de 40 milhões de toneladas por ano.
Casemiro Tércio Carvalho, coordenador de planejamento ambiental da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, credita a posição do Brasil à ampliação da inclusão digital no país e ao aumento do poder aquisitivo das classes C, D e E. Para o professor Fernando S. Meirelles, da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a questão do lixo eletrônico no Brasil não é necessariamente um problema de governo. "É um fator cultural. O mercado de reciclados ainda é muito incipiente e não há coletores suficientes."
Embora ainda tramite no Senado o projeto de lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS (aprovado pela Câmara dos Deputados em março de 2010 após 19 anos de tramitação), é possível fazer alguns comentários sobre o conjunto de obrigações legais que estruturarão juridicamente, no Brasil, a Logística Reversa (o retorno do equipamento usado para o fabricante ou comerciante), que tem como implicação a Responsabilidade Compartilhada entre os Produtores/Fabricantes, os Comerciantes e Distribuidores, e os Consumidores. Está visto que não adianta a boa vontade dos consumidores se não existir uma infraestrutura de recolha do lixo eletrônico. É essa falta de estrutura que representa o grande entrave na política de gestão prevista na PNRS. Não podemos ignorar que a nossa cultura de gestão de resíduos é "zero". Daí porque o planejamento de política pública é o ponto inicial para qualquer medida que pretenda ser eficaz nessa área.


(Adaptado das seguintes fontes: http://www.e-lixo.org/elixo.html (acessado em abril de 2010), www.uol.com.br por Juan Palop (publicada em 22.02.2010) e http://lixoeletronico.org por Diogo Guanabara (publicado em 20.04.2010))


EXEMPLO DE EDITORIAL


Cuba e os direitos

Dilma Rousseff desembarcou em Cuba no penúltimo dia de janeiro. O Brasil concedera, dias antes, um visto de entrada para a blogueira cubana dissidente Yoani Sánchez, que pretendia participar do lançamento, na Bahia, de um documentário sobre a liberdade de imprensa em Cuba e em Honduras. Contudo, o gesto brasileiro circunscreveu-se à emissão do visto. A presidente nem sequer respondeu a uma solicitação da blogueira por um encontro em Havana. O assessor de política externa Marco Aurélio Garcia afirmou que a obtenção da indispensável autorização cubana de viagem era “um problema de Yoni”. A dissidente não obteve a autorização, na sua 19ª tentativa.
A visita de Rousseff coincidiu com a realização de uma aguardada conferência do Partido Comunista Cubano (PCC), que debateu a continuidade das reformas no país. O discurso de Raul Castro perante a conferência dissolveu as parcas expectativas existentes. Castro reafirmou, para surpresa de ninguém, que as reformas não alterariam em nada o sistema unipartidário cubano. Porém, avançando um pouco além, o ditador explicou que o PCC é a representação única da nação cubana, pois outros partidos ou outras correntes políticas seriam, inevitavelmente, expressões dos interesses estrangeiros operando dentro de Cuba.
No passado, regime de partido único do “socialismo real” justificavam-se com o argumento de que outros partidos expressariam os interesses das “elites” ou da “burguesia”. Afirmar, entretanto, que expressariam interesses “estrangeiros” é mais grave, pois abre caminho para definir qualquer atitude de contestação política como ato de guerra ou espionagem. Cuba engaja-se em reformas econômicas que implicam a demissão de centenas de milhares de funcionários empregados pelo Estado. Quando o regime recusa autorização de viagem para Yoani, uma cidadã contra a qual não pesam processos judiciais, está violando o direito de ir e vir, consagrado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, de todos os cubanos. Quando Castro identifica o PCC à nação cubana, está dizendo que protestos contra as demissões em massa poderão ser classificados como gestos de traição à pátria. As duas atitudes devem merecer um mesmo repúdio. (Mundo - Geografia e Política Internacional. Março/2012)

sexta-feira, 23 de março de 2012

PREPARAÇÃO PARA O 2 º SIMULADO - 30 DE março

PREPAREM-SE PARA O NOSSO PRÓXIMO SIMULADO ESTUDANDO O MATERIAL APRESENTADO A SEGUIR.

1. Argumentação e contra-argumentação

Método de investigação: assim que se pensou em algo, procurar em que sentido o contrário é verdadeiro. (Simone Weil)

A experiência de pensar o ponto de vista e a argumentação dos outros, principalmente dos que têm posições contrárias às nossas, representa um salto de qualidade em nossa capacidade dissertativa. Nosso pensamento fica mais aberto, mais maduro, mais crítico. Precisamos desenvolver essa capacidade de pensar opiniões, raciocínios, argumentos diferentes dos nossos, e mesmo os opostos. Por exemplo, no tema Nenhum homem é uma ilha você saberia dizer qual seria um argumento de alguém que pensou o contrário do que você pensa? Experimente descobrir um argumento que está fundamentando uma opinião oposta à sua, e, em seguida, examine-o atentamente. Veja em que medida ele está ou não com a razão, está ou não sendo válido. No caso de você continuar com a sua posição inicial, procure, então, contra-argumentar: procure derrubar esse argumento oposto, procure demonstrar que ele não está com razão. Você vai se tornando capaz de argumentar e de contra-argumentar, capaz de defender as suas ideias e de refutar ideias contrárias às suas.

Leia esta redação, e procure identificar os argumentos que foram usados. Mesmo que você concorde com eles, vamos fazer um exercício: você vai tentar derrubar esses argumentos, você vai fazer uma.

Atenção: faça a identificação dos argumentos e a refutação deles apenas mentalmente, sem escrever nada. É apenas um treino.

Redação:

“Nenhum homem é uma ilha”

Nenhum homem é uma ilha, porque por mais solitário que ele seja, sempre terá alguém ao seu lado, dando aquela força. O homem nunca poderia ser uma ilha, pois está sempre procurando novas coisas, novas emoções, sempre se envolvendo com gente nova, por mais desconhecido que seja.
Mesmo que a pessoa fosse muito, muito solitária, nunca poderia ser comparada a uma ilha. Na verdade, a ilha está sempre solitária. A ilha, por mais feia e sombria que seja sempre terá alguém por perto: as aves, as pedras, as árvores, a água do mar, os peixes etc.
Por isso e por muitas outras coisas, um homem não pode ser uma ilha, porque ele acima de tudo é um ser humano e por ele ser um ser humano sempre terá alguém o amando ou o querendo bem, por mais longe que esteja ou por mais feio e sombrio que ele seja. (Angelo)

Você percebeu quantos contra-argumentos poderia elaborar, através de uma leitura atenta desta dissertação? Por exemplo:

1º parágrafo: Será que realmente sempre temos alguém ao nosso lado, dando "aquela força"? E nos momentos em que isso não ocorre?
Será que o fato de procurarmos coisas novas, envolver-nos em novas emoções e novas pessoas, significa necessariamente encontrarmos o que procuramos?
2º parágrafo: A analogia entre homem e ilha é bonita, porém, podemos questioná-la. A ilha é um lugar, um cenário feito de coisas da natureza que se completam harmoniosamente. O homem, por sua vez, é um ser social, cultural, que precisa não só estar perto de outros homens mas também se relacionar com eles, conviver. Estar perto dos outros nos torna necessariamente menos solitários?
3º parágrafo: E se o homem, enquanto ser humano, não se sentir amado, querido pelos outros? Será impossível ele se sentir uma ilha?

(...) Como você está vendo, há argumentos que comprovam e argumentos que negam o tema proposto. Desenvolvê-lo dissertativamente, de acordo com o método sugerido, significa assumir um ponto de vista, argumentar a seu favor, imaginar uma contra-argumentação e, finalmente, refutá-la, reafirmando o ponto de vista.

2. “TOMAR A DEFESA DE...”

“A História em quadrinhos é um gênero menor?”

O que muitas pessoas pensam
- Exagero de imagens nas H.Q. As H.Q. levam os jovens à preguiça.
- As H.Q. são escritas em linguagem ruim. As H.Q. são responsáveis pelo mau aproveitamento dos alunos em relação à linguagem.
- As H.Q. não são uma arte, pois podemos encontrá-las em todos os jornais. As H.Q. não têm lugar na escola.


Entretanto...
- A leitura das H.Q. ajuda os jovens a apreciarem melhor o cinema e a televisão.
- As H.Q. podem ajudar e preparar os jovens para ler, mais tarde, romances (intriga, personagens...)
- A arte viva não está no museu. Sendo publicada nos jornais, as H.Q. são uma arte ao alcance de todos.



Como responder, pois, à questão colocada?



1) exposição rápida da questão, tal como ela é vista pelo adversário.
Os jovens de hoje lêem apenas H.Q. e, por esta razão, são incapazes de ler o mais simples romance. Por causa delas, os jovens não mais manifestam o menor interesse pela grande literatura. Tais são as reflexões que ouvimos frequentemente sobre este assunto.

2) 1º argumento do adversário
É certo que as H.Q. são de leitura mais fácil, graças às imagens. Sua leitura reclama menos esforços e pode, assim, levar certos leitores à preguiça.

3) 2º argumento do adversário
Certamente também, a linguagem utilizada nas H.Q. não é sempre de excelente nível e esta leitura não contribuirá para a melhora da maneira de se exprimir de certos jovens.

4) 3º argumento do adversário
É verdade ainda, que as H.Q. são publicadas em jornais que não apresentam interesse no plano cultural, o que pode fazer com que muitos digam que elas não são uma arte, não podendo assim ter um lugar na escola.

5) 1ª conclusão que parece aprovar as teses do adversário
Compreende-se muito bem, pois, que certos educadores possam fazer julgamentos tão severos sobre as H.Q.

6) Transição
Entretanto, apesar de seus defeitos, as H.Q. merecem mais indulgência. Seu sucesso junto à maioria dos jovens prova que elas apresentam um certo interesse.

7) 1ª réplica
Antes de mais nada, pela utilização de imagens, as H.Q. podem ajudar a apreciar melhor o cinema e a televisão.

8) 2ª réplica
A seguir, elas podem preparar para ler, mais tarde, os romances, na medida em que a história se desenvolve de maneira idêntica (intriga, personagens etc.).

9) 3ª réplica
Finalmente, o fato de serem publicadas nos jornais não justifica a condenação das H.Q. Uma arte viva não se encontra num museu. Nos jornais, ela se encontra ao alcance de todos.

10. Conclusão geral
Vê-se por tudo que precede, que é preciso não hesitar em modificar certos julgamentos muito severos sobre um fenômeno que apaixona jovens e adultos.

“Quando tomamos a defesa de alguém ou alguma coisa, respondemos a críticas que já foram feitas. Poderíamos nos contentar com a exposição dos argumentos favoráveis ao ponto-de-vista que queremos defender. Mas é muito mais hábil lembrar os argumentos do adversário para poder, em seguida, responder a eles. Mostramos assim que estamos a par das críticas que foram feitas, que conhecemos as acusações que foram colocadas. Desta forma, nossa defesa parecerá mais sólida.”


Colocação do assunto
1) Lembrar a posição geral do adversário, isto é, aquilo que ele tem o hábito de dizer.
...tais são as reflexões...
...escuta-se frequentemente dizer...


Exposição das críticas do adversário
2) Retomada da exposição das críticas do adversário. Reconhecemos que ele pode ter razão e que seu ponto de vista pode ser justificado. Desta forma, o leitor lhe será mais favorável (a você, que escreve). Podemos utilizar:
- fórmulas de concessão
- procedimentos de enumeração
-exemplos

Esta primeira parte se fecha por uma conclusão provisória. Parece que aprovamos o ponto de vista do adversário.
...é certo que...
...é verdade que...
...pode ser que...
...tal (afirmação) pode levar a crer que...
Sem dúvida...mas...
Pode-se perfeitamente admitir que (...), entretanto
Compreende-se então que...
Pode-se assim justificar...


Transição
3) Transição: passamos da exposição dos argumentos do adversário a sua crítica.
Entretanto / no entanto / contudo / todavia / porém etc...

Respostas às críticas
4) Respondemos às acusações do adversário, enumerando uma certa quantidade de argumentos.
Inicialmente...
Primeiramente...
A seguir...
Por outro lado...
Quanto a...
Enfim...
Finalmente...


Conclusão
5) Conclusão geral que contradiz a opinião do adversário, que já havia sido exposta na introdução.
Vê-se por tudo que precede...
Compreende-se pelo que já se disse...
Percebe-se, pois, que...


(Escrever e convencer. Gérard Vigner. In: Redação: escrever é desvendar o mundo. Severino A. M. Barbosa)

Exercício:

Análise de textos em que se observa, de maneiras diversas, a presença de argumentação e contra-argumentação.

Tema 1: (FUVEST 1999): Como você avalia a jovem geração brasileira que constitui a maioria dos que chegam ao vestibular? Situada, em sua maior parte, na faixa etária que vai dos dezesseis aos vinte e um anos, que características essa geração apresenta? Que opinião você tem sobre tais características?


Juventude contrastes

A juventude do fim do século é, muito comumente, encarada sobretudo sob seu lado negativo. São apontadas constantemente, por exemplo, o freqüente uso de drogas, a rebeldia e a negação dos mais diversos valores tradicionais, a tendência à “cultura do lixo”. Apesar de ser inquestionável a existência de um “espírito jovem” que independe da geração em questão, o comportamento dos jovens é, seguramente, conseqüência da sociedade em que vivem.
Dessa forma, a geração atual é produto do seu tempo, e é daí que surgem os evidentes aspectos negativos. Portanto, é inegável que grande parte dos jovens carrega na sua natureza básica os mais diversos valores distorcidos: violência, falta de respeito, rebeldia, entre dezenas de outros. Porém, é também inegável que a mídia e a própria sociedade atual têm um papel fundamental nesse tipo de formação.
Apesar de ser menos discutido, existe um forte lado positivo da juventude atual: ela é fruto da “era da informação”, e de um mundo extremamente modernizado. Nunca antes uma geração teve acesso tão rápido e eficiente à informação em geral, ou liberdade para discutir e questionar temas. Consequência disso é a maior produtividade do processo de educação e ensino, e maior interesse e consciência por parte dos jovens em relação ao mundo que os rodeia.
Submetida simultaneamente a influências tão contrastantes, a juventude assume um comportamento heterogêneo, mas é comum à maioria a contestação e o inconformismo. O acesso ao conhecimento traz consigo o desejo de mudanças sociais. Claro exemplo disso no contexto brasileiro é a luta pelo “impeachment” de Collor, à qual os jovens uniram-se e deram força.
Como análise final, a geração jovem do fim do século passa por rápidas e constantes transformações, paralelamente a um mundo com o qual acontece o mesmo. É seguro afirmar que, apesar dos fatores desfavoráveis, vem ocorrendo um progresso na forma de agir e pensar da juventude. Faz-se necessário que haja mobilização da sociedade para que esse progresso tenha continuidade e seja aprimorado.

Tema 2: O acordo de unificação ortográfica


O custo supera o benefício

A idéia de uma ortografia igual para todos os (hoje oito) países lusófonos é sustentada por este argumento, apresentado pelo grande Antônio Houaiss (o pai brasileiro do "Acordo") no "Breve Histórico da Língua e da Ortografia Portuguesa": "A existência de duas grafias oficiais da língua acarreta problemas na redação de documentos em tratações internacionais e na publicação de obras de interesse público". Sim, isso é fato.
Um sueco que queira estudar português pode ficar em dúvida entre "adoptar" (Portugal) e "adotar" (Brasil), por exemplo. Nesse caso, o "Acordo" abrasileira a grafia, o que desagrada aos portugueses, habituados (há décadas) ao "p" e ao "c" "mudos" de diversas palavras.
E como faria o sueco se tivesse de optar entre "cômodo" (Brasil) ou "cómodo" (Portugal)? Jogaria uma moedinha para o alto, visto que, nesse e em muitos outros casos, o projeto de unificação não unifica...
Mas o "Acordo" não se limita a "uniformizar" a grafia: aproveita a ocasião para estabelecer outras alterações no sistema ortográfico. A mais marcante talvez seja a que dispõe sobre o emprego do hífen. O que hoje é muito ruim muda para... Para igual ou pior. A mudança nos diferenciais de tonicidade é outro ponto negativo. Na ânsia de eliminar acentos mais que inúteis, como o de "pêra" e "pólo", elimina-se também o de "pára" (verbo), mais que essencial.
Some-se a tudo isso o desconforto da inevitável convivência - por um longo período - com duas grafias (a "nova", que seria vista nos jornais e revistas, por exemplo, e a "velha", que estaria diante de nós nos livros, enciclopédias etc.) e se chega à conclusão de que o custo supera os benefícios. Quem viveu a reforma de 1971 sabe bem do que estou falando. É isso. (Pasquale Cipro Neto)

Fonte:

Redação: escrever é desvendar o mundo. Severino Antônio M. Barbosa.

REDAÇÕES NOTA 10 SOBRE O TEMA "TUDO É RELATIVO? A REALIDADE É UMA ILUSÃO?"

1.

A simbologia dos objetos

A questão da ilusão versus realidade é bastante debatida atualmente, mas é difícil chegar a um consenso a este respeito, pois cada um enxerga uma realidade, e dentro dessa realidade há diversas realidades.
No mundo há várias sociedades, e cada sociedade possui uma escala de valores, uma linguagem comum, incentiva certas associações, como a que o carro novo traz prestígio, e desincentiva outras. Através desta linguagem comum, os valores éticos, estéticos da sociedade fluem com maior facilidade e, assim, a sua ideologia propaga. Porém , a imposição destes padrões não consegue impedir a existência de um mundo subjetivo em cada indivíduo.
Cada indivíduo, por outro lado, vê a realidade de acordo com a sua vivência, sua formação, as quais geram um determinado ponto de vista sobre o mundo, sobre as pessoas e dão origem a uma linguagem interior. Dentro desta linguagem os objetos possuem uma simbologia, estão associados a uma lembrança e assumem valores conotativos: um brinco de argolas pode ser Maria, um cacho de uvas, uma cidade etc. O surrealismo é uma corrente artística que procura representar a simbologia inconsciente, assim como para Dali as mulheres são formigas, ele não pinta mulheres, e sim formigas, para Magritte, um cachimbo pode significar charme, ou detetive, ou velhice etc.
Porém, não podemos nos esquecer de que o principal objetivo de todas as formas de linguagem é a comunicação, é para nos comunicarmos que aprendemos o nome dos objetos. A realidade inventada pela sociedade deve ser preservada através do sentido denotativo das palavras, visando a um menor desentendimento entre as pessoas, já que o entendimento é uma utopia.


2.

Arte, uma realidade

A casinha era maior e menor. O Tejo é o mais belo rio e o Tejo não é o mais belo rio. O quadro retrata o cachimbo, e a inscrição afirma que não se trata de um cachimbo. A afirmação e a negação. Será tudo relativo? Será tudo uma ilusão?
A realidade tem sido objeto de investigação pelo homem através da ciência, da religião e das artes. Sua abordagem, portanto, difere nos métodos e nos fins a que se destina, podendo ser rigorosa, leviana, escamoteadora, científica e, por que não?,sonhadora.
Um dos aspectos, a meu ver, mais instigadores da questão da realidade é sua relação com a arte, com a ficção. Parafraseando Machado, voltemos ao quadro do pintor surrealista. Por que teria Magritte negado a existência do cachimbo diante da evidência do retrato? Talvez para nos fazer ver que não estamos diante de um cachimbo. Desta forma, ele nos remete à ideia da realidade e da “representação” que pode ser tão rica, tão repleta de dados, tanto objetivos quanto subjetivos que vai afinal nos trazer de volta à realidade. Como uma viagem, um mergulho, do qual voltamos mais plenos. A afirmação e a negação da beleza do Tejo são fundamentais para que percebamos o que sente Alberto Caeiro pela sua aldeia.
Através da arte, podemos perceber o quanto a realidade é repleta de nuances e detalhes, sendo a ilusão apenas um de seus aspectos. E a própria arte é apenas uma das muitas possibilidades de abordagem da realidade, mas, a meu ver, tão fundamental para o ser humano quanto a ciência. (Redação nota máxima)


3.

Sobre cachimbos e não-cachimbos

Cachimbo é um instrumento usado por fumantes, feito de madeira, oco e que tem a forma de uma longa haste terminando em chaminé. Temos uma sequência de sons e símbolos gráficos, para simbolizar tal objeto. Há quadros que o representam visualmente. Mas o que aconteceria , caso um cachimbo fosse parar num planeta habitado por seres que nem imaginam o que é fumar? O que seria tal objeto para eles? E se a vida humana desaparecesse: o que significaria, para um arqueólogo de Alfa Centauro, a sequência dos símbolos c-a-ch-i-m-b-o? E a sequência sonora correspondente, que houvesse sobrevivido em uma fita gravada?
Por mais paradoxal que possa parecer a afirmação, a relatividade é uma certeza absoluta. Um cachimbo é um cachimbo para quem sabe o que é um cachimbo. Para quem não sabe é apenas um pedaço de madeira oco, aberto a interpretações que pode servir para qualquer coisa e receber qualquer nome.
Mas seria válido, tomando como justificativa essa multiplicidade de interpretações, dizer que a realidade é uma ilusão? Não acho. O objeto “cachimbo” não deixa de ser real por não sabermos o que ele é ou por darmos a ele uma interpretação da realidade, apenas porque nossos conceitos são dúbios, equivale a dizer que a existência só é real quando legitimada por nosso conhecimento. Será que, quando morrermos, o mundo deixará de ser real?
Francamente, afirmar que tal coisa seria dar uma importância grande a um macaco sem pelos... (Redação nota máxima)


4.

O respeito à objetividade e à subjetividade dos fatos


Discussões sobre objetividade e subjetividade vêm ocorrendo há séculos, sendo que os defensores de ambos os lados procuram definir os limites entre o que é objetivo e o que é subjetivo. Muitos nomes importantes da ciência e da filosofia envolveram-se nestas discussões, sendo que vários caíram nos extremos opostos, ora afirmando que tudo é objetivo, podendo ser cientificamente comprovado, ora afirmando que não existe objetividade, tudo dependendo de quem analisa o fato.
Como em todas as questões, os extremistas se perdem em radicalismos, sendo, assim, difícil chegar a um consenso. É claro que há a realidade objetiva, cientificamente comprovável, mas também há os aspectos humanos envolvidos, já que são pessoas que estudam esta mesma realidade.
Isso fica claro nos textos de Machado de Assis e de Fernando Pessoa apresentados. Em ambos, os autores percebem a existência de uma realidade objetiva inegável e, a ela, acrescentam uma outra, a subjetiva, que depende do indivíduo e só existe a partir dele.
Já René Magritte, em seu quadro, corrobora esta opinião, demonstrando que há certas características dos objetos que podem ser captadas por nós, mas que sua essência não. Por mais perfeita que sua pintura do cachimbo possa parecer, ela nunca será igual a ele, pois ela não passa de uma imagem.
Enfim, o objetivo e o subjetivo existem, mas é importante que, na aceitação de um, não esteja incluída a negação do outro, pois eles coexistem na essência das coisas. (Redação nota máxima)