quinta-feira, 6 de setembro de 2012

CRÍTICA E PRECONCEITO

REDAÇÃO 6

Crítica ou preconceito - onde está a imparcialidade?

Cesar Eduardo Zambon

Ao longo da história, um problema clássico que sempre se apresentou a filósofos, artistas, cientistas e demais acadêmicos foi o da possibilidade de seestabelecer um sistema de ideias completamente livre de qualquer conceito pré-concebido. Foi isso o que levou, por exemplo, Descartes a duvidar de tudo que os órgãos dos sentidos lhe forneciam e a buscar o princípio do conhecimento em um juízo intelectual que estava, aparentemente, acima de qualquer suspeita – o “eu penso”. Foi isso também o que levou os cientistas revolucionários a duvidar dos sistemas de explicação da realidade por assim dizer vigentes em seus respectivos campos e a buscar uma nova explicação para essa mesma realidade – uma explicação que não estivesse maculada por ideias pré-estabelecidas e mal esclarecidas. Buscavam-se princípios universais e indemonstráveis – verdades que se provam verdadeiras por si mesmas, independentes de fé, dogma ou qualquer tipo de preconceito.

Partindo-se dessa premissa, estabeleceu-se uma distinção entre crítica embasada e crítica preconceituosa. Essa distinção, com o tempo, passou a valer não apenas nos campos da ciência e da filosofia, como também no campo moral e social. Criou-se, assim, o conceito de imparcialidade do exame crítico. De modo que, para ser considerado apto para criar ou julgar um sistema de idéias ou uma ação moral, o crítico deveria estar desprovido de qualquer preconceito, ou seja, de qualquer pré-julgamento que fosse fruto de um ou mais conceitos irrefletidos e inexplicados presentes em sua mente e que pudessem intervir no exame imparcial do objeto em questão. Com efeito, uma crítica deveria ater-se ao seu objeto e a princípios verdadeiros de julgamento.

Contudo, é nesse momento que nos deparamos com a chave do problema: quais são esses princípios verdadeiros de julgamento? Será que eles sequer existem? Deve-se notar que essa idéia de crítica imparcial suscita duas questões. Primeira: é possível uma pessoa ser totalmente imparcial, isto é, deixar de lado todos os seus pré-conceitos e julgar algo de forma totalmente isenta? Segundo: se tudo isso for possível, esse julgamento isento seria fundado exatamente em quê?

Vemos que a ciência sempre esteve em uma busca incessante por aquele princípio básico, belo e bem fundado edifício do conhecimento, capaz de explicar a realidade como um todo. E, assim sendo, toda crítica embasada deveria se basear em tal princípio, fosse qual fosse o objeto em questão. De forma análoga, todo julgamento moral deveria se fundar em um princípio moral universal, que fosse verdadeiro e evidente por si só e independente de qualquer dogma ou crença.

Todavia, o que constatamos é que, até hoje, a ciência busca esse princípio universal, sem sucesso. Tudo que se pôde encontrar até aqui foi uma verdade mutável – algo que se assume e que se aceita como verdadeiro. Portanto, a rigor toda a ciência se baseia em conceitos pré-estabelecidos não porque são verdadeiros, mas porque foram julgados como bons ou plausíveis. E, por mais que muitas e brilhantes mentes tenham refletido e meditado sobre eles, conceitos pré-estabelecidos são, em última instância, pré-conceitos.

Paralelamente, no campo moral, por mais que alguém tente ser imparcial ao julgar uma ação, estará sempre se fundando em algum princípio. E tal princípio, por mais que seja aceito pela maioria, ou até mesmo por todos, será sempre algo aceito e nada mais do que aceito. De fato, muito se diz que a experiência pessoal deve sempre ser levada em conta em qualquer julgamento moral. Contudo, essa experiência se mostra muito mais como um fator de preconceito do que imparcialidade, visto que a vivência pessoal nada mais é do que o conjunto de idéias, crenças e dogmas que acumulamos ao longo de nossa existência.

Portanto, devemos questionar se a dita crítica embasada não é ela mesma preconceituosa, na medida em que assume princípios como sendo verdadeiros, mesmo que não sejam nossas ideias, mas ideias gerais. De fato, quando julgamos as atitudes de outrem baseados em nossos próprios preconceitos, estamos sendo evidentemente preconceituosos. Mas quando tentamos ser imparciais e nos desligar dos nossos próprios preconceitos, acabamos por assumir outros – os preconceitos que foram enraizados na nossa mente pela sociedade em que vivemos, por algo que ouvimos aqui ou acolá ou mesmo por princípios que parecem verdadeiros e inquestionáveis e que, contudo, nunca paramos para refletir sobre eles. Deste modo, ao que parece, ser imparcial não significa desprover-se de preconceitos, mas sim desprover-se dos nossos preconceitos. Pois, ao menos que exista uma verdade não revelada que estabelece um princípio moral universal e irrevogável, quando julgamos moralmente a ação de outra pessoa, em termos de imparcialidade, os conceitos de crítica e preconceito são intercambiáveis.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

CRÍTICA E PRECONCEITO


Redação 7

O racional e o insensato

Marina Zuccolotto Nogueira

Por definição, crítica é o julgamento racional e criterioso de algo. Sendo livre de convenções, a crítica se afasta muito do que vem a ser o preconceito, que se baseia numa análise generalizada e insensata. Aqueles que levarem as experiências pessoais e cotidianas em conta , saberão diferenciar a crítica do preconceito, pois a realidade e o bom senso encarregar-se-ão de mostrar o abismo que há entre eles e impedirão equívocos.

A crítica sempre é posterior a uma análise minuciosa que, geralmente, usa de critérios técnicos e artísticos para realizar o julgamento. Ela deve ser livre de pressupostos para cumprir com sua imparcialidade e agir com justiça. Desse juízo de valor pode-se esperar um resultado que, se não verdadeiro, seja aceitável, já que não se baseou em dogmas ou no senso comum. Sendo assim, mesmo quando a crítica condena e desqualifica, ela está cumprindo seu papel de examinadora imparcial.

Distante da racionalidade, o preconceito é insensato a ponto de fazer julgamentos baseados em aparências e estereótipos. Ele se esquece do confronto do ser “versus” parecer e não se preocupa em analisar a essência. Essa superficialidade torna o preconceito extremamente injusto, já que ele não estabelece um exame crítico, e sim um pré-julgamento sem critérios e até mesmo sem moral. Muitas vezes, o preconceito é hostil e bastante prejudicial para seu alvo. Quem sofre com ele é excluído socialmente, marginalizado e discriminado, sem ao menos ter a chance de revelar suas reais qualidades. Ele já foi usado diversas vezes durante a história da humanidade para que os povos que se prejulgavam superiores dominassem, escravizassem e subordinassem aqueles que para eles eram inferiores. O próprio Imperialismo do século XIX sobre África e Ásia baseou-se no preconceituoso e fraudulento Darwinismo Social, que propagava a missão civilizadora do homem branco, como pretexto para o domínio de territórios.

Se crítica e preconceito são tão diferentes e até mesmo opostos pela definição exata, equívocos que igualem os dois são, na verdade, pretextos para justificar a discriminação de minorias. Os conceitos divergem pelo esclarecimento intelectual do indivíduo, já que o segundo parte de intolerância e ignorância. Sendo assim, se alguém, ao julgar uma pessoa, utilizar suas experiências reais como parâmetro, dificilmente confundirá crítica com preconceito, pois as evidências lhe mostrarão que ser crítico envolve ética, enquanto que ser preconceituoso é tão insensato quanto julgar de olhos fechados.

REDAÇÃO 9

As relações entre crítica e preconceito

Raissa Lago Romero

O homem diferencia-se dos outros habitantes do planeta Terra por sua capacidade intelectual. Essa habilidade, apesar das inúmeras transformações que proporcionou – já que o homem, desde a Antiguidade, busca continuamente a evolução, a melhora através da crítica a modelos preexistentes –, também é responsável pela distinção, pela segregação entre a própria espécie humana, pois os que se julgam mais capazes intelectualmente têm, tradicionalmente, subjugado os que consideram mais fracos. A partir disso, pode-se perceber a lacuna existente entre a crítica, que promove o progresso humano em diferentes âmbitos, e o preconceito, que demonstra as limitações do homem, o qual não consegue agir em conjunto, com união, mas somente através da ascensão de uns que exercem domínio sobre outros.

Os benefícios alcançados a partir da capacidade humana de criticar, de não se acomodar, podem ser observados em diversos contextos históricos. O Renascimento é um dos melhores exemplos dessa característica da humanidade, pois essa época corresponde ao início das transformações que possibilitaram a passagem da Idade Média – período de quase completa dominação sobre a capacidade criativa do homem exercida pela Igreja – para a Era Moderna, que representou uma verdadeira “ebulição” de ideias, descobrimentos, invenções, do pleno exercício da intelectualidade humana. Essa passagem, no entanto, só foi possível por causa do espírito indagador do homem que não conseguiu aceitar por tanto tempo as verdades absolutas impostas pela Igreja, a qual condenava qualquer iniciativa transformadora que questionasse a ordem vigente.

Em oposição à crítica, aparece o preconceito. A própria palavra já indica seu significado, ou seja, a formação de uma opinião pré-concebida, sem fundamento racional. Este surge da necessidade humana de se diferenciar do outro, ao contrário da crítica que procura melhorar o outro. Um exemplo de preconceito, talvez o mais difundido em todo o mundo, é o da cor da pele. Objetivando a expansão de suas nações, alguns países europeus criaram a ideia de que os africanos eram seres inferiores por serem negros e, por isso, precisavam de sua ajuda. Essa foi a justificativa para respaldar a colonização desses povos. O imperialismo europeu ainda se reflete na miséria existente nos países da África negra. Além disso, esse julgamento sem qualquer embasamento científico, sem qualquer prova concreta se disseminou em todo o mundo, sendo responsável pelas dificuldades sócio-econômicas impostas a qualquer pessoa que sofra o “azar” de nascer com a pele negra.

Portanto, a maior diferença entre crítica e preconceito está nos efeitos que elas exercem sobre os homens. Não há como confundir os dois conceitos, pois um busca o progresso, a melhora da humanidade e o outro objetiva a diminuição do ser humano e a distinção entre os homens. Assim, enquanto a humanidade não consegue usar a sua intelectualidade por meio da crítica, superando os julgamentos preconceituosos, não conseguirá desenvolver uma evolução plena, abrangendo o todo e não só as partes.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

VINGANÇA


Pontos de vista em relação à vingança (referentes à coletânea):
- Aristóteles;
- Sêneca;
- Lei de talião;
- Bíblia.
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Em definição, o que é vingança?
Vingança consiste em ir contra uma pessoa ou grupo em resposta a algo que foi percebido ou sentido como prejudicial. Quem busca vingança deseja forçar o outro lado a passar pelo que passou e/ou garantir que não seja capaz de repetir a ação nunca mais.
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Durante a história, a ética da vingança vem sendo debatida acaloradamente, na filosofia, na sociologia, na antropologia. Pontos positivos ou negativos, a vingança sempre esteve atrelada ao sentimento de justiça, de igualar um mal recebido e punir aquele que o praticou. Historicamente, a vingança (ou este sentimento) aparece na instituição de um dos primeiros códigos de conduta do homem na sociedade: o Código de Hamurabi.
- Código produzido, em estimativas, no ano 1.700 a.C., na Mesopotâmia;
- Um dois principais pontos do código de Hamurabi é a Lei de Talião: “Olho por olho, dente por dente”;
- Mesmo pensamento é encontrado no Êxodo 21:24, no Antigo Testamento da Bíblia;
- Instituição desta lei permite assim a vingança, porém esta com consequências medidas – um olho por um olho – evitando uma série de ações violentas, desmedidas e sem proporção – a barbárie, prezando pelo cuidado que a lei implica e códigos de boa convivência.
- Durante a Idade Média não se considerava um insulto ou injúria resolvidos até que vingados.
- No passado feudal do Japão, a classe samurais mantinha a honra de sua família, clã ou senhor, através do katakiuchi (敵討ち) ou assassinato vingativo.
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E na sociedade atual, onde notamos ações vingativas ou crimes relacionados a ela?



- O corpo do empresário foi encontrado esquartejado e espalhado na divisa entre as cidades de São Paulo e Cotia. Elize Matsunaga, mulher da vítima, confessou no dia 6 de junho ter matado e esquartejado o marido. Em depoimento, Elize diz que atirou em seu marido em meio a uma discussão por ciúmes. Semanas depois, divulgou uma carta em que conta ter sido ameaçada e humilhada pelo empresário Marcos Matsunaga quando estavam casados. Entre outras acusações, Elize afirma que era ameaçada de morte.
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- Um homem foi morto a tiros dentro da própria casa em Campo do Meio, no Sul de Minas. Três homens armados invadiram o local. De acordo com as informações da polícia, a motivação do crime seria vingança. Há 14 anos, a vítima cumpriu pena por matar sua mulher na época. O irmão desta é um dos suspeitos de envolvimento na execução da vítima. Adilson Moraes, de 28 anos, foi preso e confessou o assassinato.
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- Um homem de 35 anos foi preso em flagrante por suspeita de tentar matar a filha de 1 ano e 7 meses envenenada. O caso aconteceu na noite desta terça-feira (24 de julho), no Jardim Elvira, em Osasco, na Grande São Paulo. Segundo a Polícia Civil, ele teria dado para a criança uma coxinha com veneno de rato, conhecido como chumbinho. A motivação do crime seria uma vingança contra a ex-mulher. A criança foi levada ao Hospital Regional de Osasco, onde passou por lavagem estomacal. Ainda de acordo com a polícia, o suspeito fingiu ter tomado o veneno, mas, após ser submetido ao mesmo procedimento, foi descoberto que não havia vestígio de chumbinho no estômago dele.
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- Uma adolescente de 13 anos é suspeita de ter colocado formicida no lanche do pai, um lavrador de Votuporanga (SP). O homem percebeu o sabor do veneno e reconheceu que era o mesmo que ele usava em sua propriedade. Durante as investigações, a polícia identificou a filha da vítima como suspeita e a garota acabou confessando o crime. A adolescente disse que ficou revoltada por ter sido proibida pelo pai de namorar e de sair com os amigos.
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- O Massacre de Realengo aconteceu em 7 de abril de 2011, por volta das 8h30min da manhã, na Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro de Realengo, na cidade do Rio de Janeiro. Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu a escola armado com dois revólveres e começou a disparar contra os alunos presentes, matando doze deles, com idade entre 12 e 14 anos. Oliveira foi interceptado por policiais, cometendo suicídio. A motivação do crime figura incerta, porém a nota de suicídio de Wellington e o testemunho público de sua irmã adotiva e o de um colega próximo apontam que o atirador era reservado, sofria bullying e pesquisava muito sobre assuntos ligados a atentados terroristas e a grupos religiosos fundamentalistas. Descobriu-se que ele comprou dois revólveres e um carregador rápido, bem como tomou aulas de tiro, havendo evidência de que planejava a ação desde o ano anterior, sempre com intenção de vingança.
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- A polícia paquistanesa afirmou ter prendido dois homens acusados de despir uma mulher e obrigá-la a caminhar nua pelas ruas de um vilarejo no norte do país. Um dos criminosos acusa o filho da mulher agredida de ter tido relações ilícitas com sua esposa.
A polícia afirmou que os moradores não tentaram impedir o ato porque os agressores estavam armados. O chefe da polícia local, Mohammad Ali Gandapur, disse à BBC que um dos acusados fez uma reclamação aos anciãos do vilarejo alegando que dois homens tiveram relações sexuais com sua mulher.
Ele foi aconselhado a se separar da esposa, mas, em vez disso, resolveu se vingar. Juntamente com quatro homens, ele invadiu a casa de um dos homens que teria se relacionado com a mulher para matá-lo. Como ele não estava, sua mãe foi arrastada para fora da casa e obrigada a se despir. A polícia ainda procura os outros acusados.
Em cada caso mostrado, a motivação da vingança é diferente. As implicações e o seu objeto, porém mudaram – em alguns casos quem sofreu posteriormente foi o próprio causador do mal, mas em exemplos como o do Realengo, o troco não foi dado na mesma moeda, tendo em vista o caráter extremista do jovem.
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Em Revenge (Vingança), série americana do canal ABC (EUA)/ Sony (Brasil), há uma nova roupagem para o enredo de O Conde de Monte Cristo, romance de 1844, escrito por Alexandre Dumás. Na história a jovem milionária Emily Thorne, com verdadeiro nome Amanda Clarke, retorna a sua cidade natal após anos fora, em decorrência da prisão e morte do pai. Durante este período de exílio, é encaminhada a um reformatório, até que completasse a maioridade, e após isto arquiteta seu plano de vingança para aqueles que destruíram sua vida e acabaram com a de seu pai.
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Em O Conde de Monte Cristo, o cerne da história é o mesmo. Edmond Dantès, jovem, cheio de vida, feliz, está prestes a alcançar a maior felicidade que se possa imaginar: está para casar com sua amada Mercedes. No dia, quando está anunciando seu noivado, inescrupulosos inimigos, que ele não imaginava ter, fazem chegar às mãos do substituto do procurador do rei, um homem ambicioso, uma denúncia contra o jovem, em que o acusam de bonapartista (estar apoiando Napoleão) e de possuir uma carta endereçada a um grupo de seguidores do imperador, anunciando o seu retorno da Ilha de Elba. Dantès é, então, preso injustamente e trancafiado no Castelo de If, um presídio localizado numa ilha próxima a Marselha.
Durante todo o tempo, planeja sua vingança contra os três principais integrantes deste complô: o juiz de Villefort, filho do destinatário da carta de Napoleão, que, mesmo atestando sua inocência, quis silenciá-lo; o seu amigo, Danglars, que desejava o posto de capitão do navio, já que Dantés recebeu o posto por mérito, e Fernand Mondego, melhor amigo, primo e futuro marido de sua então noiva, a catalã Mercedes (que, porém, nunca o esqueceu). Edmond cria uma grande teia para se vingar dos seus inimigos, assumindo vários nomes: Lord Wilmore na Inglaterra; Simbad, na Itália, e também o misterioso abade Busoni.
Com um lado histórico muito forte, um olhar psicológico sobre os personagens (novidade para as obras literárias da época), o livro foi readaptado para o cinema mais de 10 vezes, encenado em palcos de teatro pelo mundo, clássico da Literatura, é retomado em trabalhos de intertextualidade corriqueiramente.
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O homem, refletido pela mídia, pelas obras ficcionais, então pode chegar aos limites para conseguir vingança, justiça a qualquer preço? Aliás, e a justiça?
Clarence Darrow, advogado estadunidense, ficou conhecido por ter defendido os adolescentes assassinos (thrill killers) Leopold and Loeb no seu julgamento pelo assassinato de Bobby Franks (de 14 anos) e por ter defendido John T. Scopes no julgamento que ficou conhecido como "Monkey Trial", se opondo ao defensor fundamentalista cristão William Jennings Bryan. Ele é reconhecido por sua astúcia, compaixão e agnosticismo que o marcaram como um dos mais famosos advogados americanos e defensores dos direitos civis.
Na cena, é citado: “Não há nada como justiça, dentro ou fora do tribunal”.
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E a diferença entre vilão e herói, durante a vingança? Quem é quem?
Em Avenida Brasil, Carminha sempre representou a figura da pessoa egoísta, que pensa no seu proveito e faz de tudo para conseguir o que almeja, até mesmo se, durante a vida no lixão, ela tem que colocar para trabalhar crianças, que depois as descarta com a maior naturalidade.
Nina, no seu plano de vingança, está se tornando pior que a própria vilã, mostrando um lado negro daquele que comete também a vingança.
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Por outro lado, o vingador pode acabar se tornando, mesmo com alguma conotação negativa e um sentimento denso, um grande herói. Vendetta, palavra italiana, absorvida por algumas línguas no mundo designa uma sequência de ações e contra-ações motivada por vingança que demora um longo período de tempo, por ser um processo, postas em prática por grupos que buscam a justiça.



Exemplo mais que claro disso é a obra V de Vingança, originalmente produzida em formato de HQ, escrita por Alan Moore, adaptada para o cinema. O enredo, situado num passado futurista (uma espécie de passado alternativo), em uma realidade em que um partido de cunho Totalitário ascende ao poder após uma guerra nuclear, descreve o momento pós o fim deste conflito político, com os campos de concentração desativados e a população complacente com a situação. Neste cenário, surge "V" — um Anarquista que veste uma máscara e é possuidor de uma vasta gama de habilidades e recursos. Ele então inicia uma elaborada e teatral campanha para derrubar o Estado, em um sentimento de vingança perante o mal que o sistema implantou.
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O mesmo sentimento “anarquista” presente em tantos conflitos sociais atuais, como exemplo das manifestações que ocorrem em diversos lugares do mundo.
“Folha de São Paulo – 02/06/2012
Desejo de justiça e sede de vingança toma conta do Egito; ouça correspondente
DE SÃO PAULO
Após dez meses de julgamento, o ex-ditador do Egito Hosni Mubarak foi condenado hoje à prisão perpétua, responsabilizado pelo assassinato de manifestantes durante a revolução que colocou fim a seu regime em fevereiro de 2011.
Com óculos escuros e em uma maca, Mubarak ouviu impassível a sentença ditada pelo Tribunal Penal do Cairo. Segundo Marcelo Ninio, correspondente da Folha no Oriente Médio, nas ruas muitos afirmam que achavam mais justa a pena de morte para o ex-ditador. "O desejo de justiça mistura-se com a sede de vingança", diz.

MULHER E MACHISMO

De olhos bem abertos


UMA CRÍTICA DO MACHISMO NOSSO DE CADA DIA, E OTRAS COSITAS MÁS...

Mulher, não me venha com história.


Mulheres não têm história. Ou pelo menos é assim que o machismo nos quer fazer pensar. A mulher tem sempre entre 16 e 30 anos de idade, coincidentemente a idade reprodutiva ideal. Sempre está bem disposta, arrumada, preferencialmente com cabelos lisos ou cachos comportados (rabo de cavalo só se for para fazer o tipo esportista) e, acima de tudo, não tem passado.
Enquanto o homem é retratado em suas mais diversas fases, seja como o adolescente rebelde, o jovem adulto, o gatão da meia-idade ou mesmo o cinqüentão bem-sucedido e assim por diante, a mulher, apesar de também ter diferentes representações na indústria cultural, geralmente passa a imagem de sempre possuir os seios firmes, a bunda levantada e todas aquelas outras marcas que na verdade dizem respeito a somente um período corporal e hormonal, e não a uma vida inteira de variações.
Talvez por isso estejam tão em voga as terapias hormonais. Claro, questões como ovários policísticos e conseqüências indesejáveis da menopausa também são solucionadas com terapia hormonal. Mas o que assusta é o fato de mulheres sentirem-se compelidas (pois o querer não está errado, o erro está em sentir-se obrigada a fazer algo) a manter o seu corpo falsamente estático, quando ele tem uma história para contar. A mulher, assim, acaba num entroncamento, em que só pode escolher duas direções: ou se torna a mãe amada por sua família, querida por seus amigos, admirada por todos, mas jamais considerada em sua beleza corporal, e assim avança em direção ao dito outono de sua vida, ou mantém-se eternamente jovem, recorrendo, a depender de seu poder aquisitivo, aos mais diversos artifícios, sejam eles cosméticos ou cirúrgicos.
Por outro lado, a infância também se vê surrupiada em seu grande potencial expressivo por conta dessa imagem estática da dita jovem mulher. Roupas que realçam partes do corpo como coxas, seios, colo são portadas por meninas que ainda estão longe de sua menarca, quando, aí sim, em algumas delas, estas partes começarão a ganhar volume e fará algum sentido dar-lhes destaque. Claro, criança deve usar o que deixa a criança feliz, e por isso não cabe uma crítica individual a esta ou aquela menina, mas sim uma crítica estrutural à forma como a menina é vestida, sempre de maneira não prática, em roupas que dificilmente são adequadas para brincadeiras como pique-esconde ou pega-pega (se é que ainda se brinca disso).
A pedofilização da sociedade é um tema que merece uma reflexão mais detida, e por isso deixaremos para abordá-la em específico em outro momento. O que vale como introdução para a história da mulher sem história é justamente a noção de que a mulher vê-se constantemente empurrada em direção a um ideal feminino, a um ideal que tem idade, que tem cor e que tem classe. Este ideal feminino obedece, primeiramente, ao padrão reprodutivo das mulheres (aqui se utiliza o termo “mulher” para significar pessoas nascidas com vagina, ovários e útero, mas esses ideais também são empurrados a todas aquelas pessoas nascidas com um pênis, mas que buscam construir-se como do gênero feminino, também mulheres).
Não é preciso saber muito de biologia para entender que a idade reprodutiva da mulher começa na primeira menstruação e acaba com a menopausa. A coisa fica um pouco mais complicada, porém, quando tentamos compreender porque numa sociedade onde o número de crianças em abrigo aguardando a adoção é elevadíssimo, onde os métodos de reprodução assistida já se encontram em estágio relativamente avançado, e onde a maternidade, ao menos num primeiro momento, parece não ser uma obrigação à mulher, enfim, é difícil compreender como, atualmente, a beleza de uma mulher pode estar focada nesse significativo, mas não majoritário, período de sua vida.
É como se a beleza da mulher estivesse ligada a sua utilidade enquanto máquina reprodutora. Aqui o argumento biologicizante sempre surge para legitimar esta visão estática, pois se no mundo animal escolhe-se o parceiro de acordo com sua vitalidade e a possibilidade de, em se combinando seus genes com este parceiro, ter-se uma prole mais saudável e forte, no mundo humano não haveria de ser diferente. Acontece que não estamos falando de reprodução, estamos falando de afeto, estamos falando de sexo por prazer, estamos falando daquilo que nos faz humanos, e esta animalização biológica para a qual tentam empurrar as críticas a esse modelo estático é simplesmente um retrocesso que nem o próprio Darwin aceitaria.
Por outro lado, essa imagem estática da mulher não tem só uma utilidade reprodutiva, se é que a tem. A imagem estática da mulher fomenta uma lucrativa indústria de produtos e serviços que vai desde o mais ínfimo lápis de olho até caríssimos tratamentos com choques, produtos químicos e procedimentos invasivos. Novamente, o erro não está em a mulher desejar alterar e viver o seu corpo da forma como ela sente que a fará feliz, mas sim em haver tão-somente uma imagem possível para esse fim almejado.
Mas não é só no setor de produtos e serviços que tal ideário é capaz de receber um investimento financeiro e temporal das mulheres. A indústria cultural talvez seja o principal vetor dessa cultura estática, dessa imagem repetida ao infinito, de uma mulher inexistente. Essa caricatura que busca representar a mulher universal e que, no fim das contas, especialmente por conta dos recursos gráficos hoje amplamente utilizados nas nossas iconografias de banca de esquina, não representa ninguém, transforma a mulher num pastiche, numa cópia imperfeita daquilo que ela nunca poderá ser.
E isso gera frustração. Isso gera uma alienação em relação ao próprio corpo, em relação às próprias formas, em relação às marcas, em relação à própria história. Cuidar da saúde não é sinônimo de ser magra. Ser magra não é sinônimo de não se alimentar bem. Alimentar-se bem não é sinônimo de ser gorda. Ser gorda não é sinônimo de não ser saudável. E nenhum dos anteriores é sinônimo ou antônimo de ser bela. Enquanto o discurso científico avança, mostrando cada vez mais que qualidade de vida é algo muito mais individual do que objetivo, o discurso midiático mantém a imagem estática daquela mulher que não existe.
Contudo, nada é por maldade, mas sim para incentivar a beleza natural das mulheres, afinal toda mulher nasce com uma sobrancelha feita, passa pela puberdade com apenas uma fina tira de pêlos na virilha e chega à meia-idade sem nenhum buço, com cutículas que nunca crescem e cabelos que nunca ressecam e nunca perdem a cor. A “beleza natural” da mulher, no momento em que se coloca como passível de massificação, contradiz-se, uma vez que o natural torna-se normal, normativo, imposto.
Assim, é fácil perceber que a perspectiva pela qual a mulher é capturada tem uma idade, e tem uma classe, porque ser mulher não sai barato. E não sai barato não apenas pelo dinheiro investido, mas também pelo tempo gasto em ser mulher. Um interessantíssimo estudo antropológico (que eu infelizmente não tenho à mão para indicar a referência exata) conduzido entre travestis argentinas buscava compreender como as revistas direcionadas para este setor específico de mulheres atuavam na construção de sua auto-imagem. A espantosa conclusão, já alcançada quase meio século antes por Simone de Beauvoir, foi a de que as revistas para mulheres trans se assemelhavam na sua quase totalidade às revistas de beleza para mulheres cis-gênero, e que tal qual as mulheres trans, as mulheres cis também tinham de aprender a ser mulheres, a andar como mulheres, a se vestirem como mulheres, a falarem como mulheres.
Obviamente, isso não é privilégio feminino, uma vez que também a masculinidade é um habito imposto e duramente reforçado sobre o sujeito nascido com um pênis. Ainda assim, o investimento estético masculino liga-se muito mais a signos de poder do que a signos de submissão. O corpo da mulher aparece enquanto corpo domesticado, marcado, depilado, furado e constantemente alterado a fim de não demonstrar nenhum tipo de alteração, ao passo que o corpo do homem porta símbolos de riqueza, de força, de dominação, quase numa relação sado-masoquista, só que sem consenso, desaguando muitas vezes em frustração, exclusão e, obviamente, desigualdade.
É por isso que a mulher que se insere em espaços eminentemente masculinos muito provavelmente possui o dobro ou o triplo do mérito de um homem que ocupa o mesmo lugar, pois tem sobre si a pressão de ser mulher, de manter o seu corpo, de manter a sua imagem e de não ser “desleixada”, ao passo que para o homem, para não ser desleixado, basta que corte o cabelo uma vez a cada duas ou três semanas, e faça a barba uma vez a cada dois dias, a depender da pessoa.
Portanto, idade e classe, dinheiro e tempo. Mas ainda, raça. E isso porque num país onde mais da metade da população é negra, o ideal de mulher continua tendo a pele clara, os cabelos lisos ou ondulados. O cabelo dito natural certamente não é o forte cacheado de um belo afro, e também não é o interessante emaranhado de um cabelo mulato, mas sim é o cabelo que tomba sobre os ombros, mesmo que sejam os ombros de uma negra.
Enquanto a mulher de cabelos lisos acorda e, geralmente (não vamos fazer generalizações aqui, mas por favor entendam o argumento), precisa tão-somente escovar o cabelo para estar “apresentável”, a mulher negra passa por diversos processos de hidratação, relaxamento, alongamento, alisamento etc, para ter um cabelo considerado “bonito”, ou pelo menos arrumado.
E não só no que se refere aos cabelos, mas também à pele, afinal, se poucas são as mulheres negras na televisão, a maior parte delas é de negras claras, negras que atendem ao estereótipo “mulata tipo exportação”. Dificilmente são chamadas de negras, mas passam tranquilamente por eufemismos, que vão desde o passivo-agressivo “pé-na-senzala” até o consagrado “morena”. Dessa forma, tem-se a mulher e a mulher morena. Tem-se o cabelo e o cabelo ruim. Tem-se, portanto, o sujeito e o sujeito adjetivado, e que geralmente carece de algo para tornar-se sujeito pleno.
Mas isso vai além, uma vez que é a própria face da mulher negra que se torna objeto de disputa política, já que o nariz largo e achatado não condiz com o fino ideal estético pseudo-europeu por nós adotado. A África não é um país, mas um continente, com as mais diversas etnias, e certamente não é suficiente dizer que “tem uma negra na novela”. Aliás, novelas são o de menos. A questão é que por todos os lados, seja na política, seja na educação, seja na indústria cultural, os ideais de mulher negra que conseguem penetrar nesses espaços dificilmente conglobam etnias que não se assemelhem ao rosto europeu, de traços mais finos e ovalados.
Essa retirada simbólica da identidade racial da mulher negra, cis ou trans, também é uma ótima fonte de investimento num país onde, contrariamente ao que a televisão tenta nos fazer crer, a maior parte das pessoas não acorda com cabelos lisos e não tem a pele clara. Assim, é possível criar toda uma série de artifícios através dos quais a mulher negra pode destruir-se, pagando assim o preço de ingresso na sociedade unidimensional da mulher padrão.
Portanto, idade, classe e raça. Apesar de constituírem uma possível miríade de diferentes tipos de corpos, e de vivências do corpo, e de constantes processos de reformulação deste corpo, estes três aspectos funcionam como os três suportes perfeitos de um plano, sobre o qual repousa a fotografia de uma única mulher. Essa mulher não tem história, ela tem eternamente só uma idade. Na medida do possível, essa mulher não tem classe. Ela gasta seu tempo e seu dinheiro num eterno ímpeto de demonstrar ser igual, anulando suas diferenças, mesmo que para isso sacrifique outras possibilidades de investimento financeiro. Finalmente, essa mulher não tem raça, uma vez que, salvo tenha tido a sorte de nascer com a pele mais bem representada de nossa indústria cultural, ela deverá passar a sua vida negando aqueles traços que afloram de seu corpo, e que constituem seu inalienável patrimônio cultural e histórico.

P.S.: agradeço imensamente à paciência e carinho de minha namorada e companheira de militância Ana Flávia, que não apenas digitou a presente reflexão, mas tem me ajudado muito desde que um episódio de breve estupidez inutilizou temporariamente minha mão direita. Te amo muito…
P.P.S.: como não estou em casa, encaminho as referências bibliográficas do texto mais tarde.



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